Análise da Invisible Work

Preço dinâmico: se todos olham o concorrente, o ganho está no cliente

O preço dinâmico já é realidade, e a maioria das empresas que pensa em adotá-lo quer ajustar o preço olhando o concorrente. Quando o mercado inteiro faz isso, o preço de cada um vira função do preço dos outros: ou vem a espiral (um livro de biologia chegou a US$ 23,7 milhões na Amazon em 2011) ou um alinhamento (nos postos alemães, a margem subiu 28% onde os dois concorrentes adotaram o software, e o Cade investiga um caso no Brasil). A IA permite outra coisa: um preço para cada cliente, e o melhor preço não é o menor. Uma leitura da Invisible Work sobre que informação do cliente a empresa precisa descobrir e como isso serve à estratégia de margem.

Gustavo Bodra12 min de leitura

O ciclo do preço copiadoCiclo de cinco etapas em volta do rótulo preço pelo concorrente: todos ajustam o preço pelo rival, os preços convergem para o mesmo ponto, a margem encolhe ou chama o regulador, resta cortar custo e acelerar o ajuste, a empresa olha ainda mais o concorrente, e o cliente fica de fora.O ciclo do preço copiadopreço peloconcorrenteTodos ajustam opreço pelo rival1Os preços convergempara o mesmo ponto2A margem encolhe ouchama o regulador3Resta cortar custoe acelerar o ajuste4A empresa olha aindamais o concorrente5e o clientefica de fora
O ciclo mostra como o preço calculado pelo concorrente se reforça: das espirais da Amazon e dos postos alemães à investigação do Cade, quanto mais todos olham o rival, menos sobra para conhecer o cliente.
Compartilhar

Parte 1 / Entenda os dados

O que o preço dinâmico já é hoje, e por que olhar o concorrente leva ao mesmo lugar?

O preço dinâmico já é realidade, e a maioria das empresas que pensa em adotá-lo quer a mesma coisa: ajustar o preço olhando o concorrente. Quando o mercado inteiro faz isso, o preço de cada um vira função do preço dos outros, e ninguém sai na frente: o fim é a espiral (um livro de biologia chegou a US$ 23,7 milhões na Amazon) ou um alinhamento que alguém acaba cobrando. A IA permite outra coisa: um preço para cada cliente. A leitura corrente usa a IA para enxergar o concorrente mais rápido. A premissa escondida é que a informação que vale para precificar está fora da empresa, no mercado. Ela está dentro: no cliente. [1] afirmação da fonte original[3] afirmação da fonte original

Em 2011, o biólogo Michael Eisen encontrou na Amazon um livro de biologia do desenvolvimento à venda por US$ 23.698.655,93. Dois vendedores usavam algoritmos que ajustavam o preço em função do preço do outro, e cada ajuste empurrava o outro para cima. O ciclo foi notado e o preço foi baixado. [1] afirmação da fonte original A prática não é exceção: Le Chen, Alan Mislove e Christo Wilson acompanharam por quatro meses todos os vendedores de 1.641 produtos mais vendidos da Amazon e identificaram estratégias algorítmicas de preço em mais de 500 vendedores. [2] afirmação da fonte original

Nos postos de combustível da Alemanha, onde o software de preço se popularizou a partir de 2017, Assad, Clark, Ershov e Xu mediram o que acontece quando os concorrentes adotam. A margem subiu 9% nos postos que adotaram, só onde havia concorrência. Entre dois postos que disputavam a mesma região, a margem do mercado ficou igual quando só um adotou e subiu 28% quando os dois adotaram. [3] afirmação da fonte original No Brasil, o Cade investiga desde novembro de 2024 um software de preços de postos que calcula o preço a partir de custo, volume e preços praticados, e um estudo do departamento econômico do órgão achou aumento de R$ 0,02 a R$ 0,04 em cada litro nos postos que o adotaram. [4] afirmação da fonte original[5] afirmação da fonte original Em 2 de outubro, uma ação coletiva em Chicago passou a alegar o mesmo tipo de efeito entre franqueados do McDonald’s, que nega. [6] afirmação da fonte original

Vendedores com preço algorítmico na Amazon
mais de 500
Vendedores que Chen, Mislove e Wilson identificaram, em quatro meses de dados, entre todos os que vendiam 1.641 produtos mais vendidos da Amazon Marketplace.
Margem nos postos alemães quando os dois concorrentes adotam
+28%
Aumento da margem do mercado em disputas entre dois postos em que ambos adotaram o software de preço. Quando só um adotou, a margem do mercado não mudou.
O livro de biologia da Amazon
US$ 23,7 milhões
Preço a que chegou um livro em 2011, porque dois vendedores deixaram algoritmos ajustarem o preço um em função do outro.

Termos deste texto, em uma frase

Preço dinâmico: preço que muda sozinho, por regra ou por modelo, conforme o mercado, o estoque, a hora ou o cliente. Preço por cliente (hiperpersonalização): um preço, ou uma condição de prazo, frete e pacote, calculado para cada cliente a partir do que se sabe dele. Disposição a pagar: o quanto o cliente aceitaria pagar por aquilo, que depende do valor que ele enxerga e das alternativas que tem. Custo de servir: o que custa atender aquele cliente, como frete, prazo de pagamento, devolução, suporte e risco de calote.

Parte 2 / O que a leitura corrente não vê

Que informação um preço precisa ter para ganhar do mercado, e quem a tem?

A leitura corrente é a que os fornecedores vendem: acompanhar o preço do concorrente em tempo real e responder na hora. A premissa de fundo é que a informação útil para precificar mora fora da empresa, no mercado. Em primeiros princípios, a pergunta é outra: de onde vem a vantagem de um preço? Um preço calculado só com informação que todos têm só pode empatar. O preço do seu concorrente é público, e o seu também. Se cada um é função do outro, o sistema tem duas saídas.

Primeiro mecanismo: olhar o concorrente leva à espiral ou ao alinhamento

A primeira saída é a espiral: cada algoritmo reage ao outro, e o preço vai para onde a regra o empurra, como no livro de biologia, ou para baixo, quando a regra é cobrir o preço do rival. A segunda é o alinhamento: os preços sobem juntos, como nos postos alemães, onde a margem do mercado subiu 28% quando os dois concorrentes adotaram. Esse ganho é do mercado, e não de uma empresa que construiu vantagem. Também é o tipo de resultado que o Cade investiga no Brasil, e termina quando um cliente, um entrante ou um regulador quebra o padrão. Nos dois casos a empresa comprou paridade e paga a licença da ferramenta.

Segundo mecanismo: a única informação que o concorrente não tem é a do seu cliente

O que ninguém mais enxerga é o que o seu cliente valoriza, o que custa atendê-lo, o que ele vale ao longo dos anos e como reage a preço. Até aqui, essa informação morava na cabeça do vendedor mais experiente. A IA a torna sistemática: um modelo cruza o histórico de compra, o frete, o prazo, as devoluções e o atendimento de cada cliente. O resultado é um preço por cliente, e o melhor preço não é o menor: é o que combina o valor que o cliente enxerga com a margem que a empresa precisa. Pode ser mais alto para quem valoriza mais e tem menos alternativas, ou ter prazo e frete melhores para quem traz volume e recorrência. Preço é um conjunto: valor, prazo, frete e pacote.

  1. Quanto vale para ele

    Que problema você resolve, quanto custaria a ele resolver sem você, que alternativas tem, quão urgente é.

  2. Quanto custa atendê-lo

    Frete, prazo de pagamento, devolução, suporte, risco de crédito. Dois clientes que pagam o mesmo preço podem ter margens opostas.

  3. Quanto ele vale ao longo do tempo

    Recorrência, mix de compra, previsibilidade, indicação de outros clientes.

  4. Como ele reage a preço

    O que fez nos últimos reajustes e descontos: ficou, pediu mais, trocou de fornecedor, comprou mais.

É assim que o preço por cliente se conecta à estratégia de margem. Em vez de um desconto igual para todos, a empresa decide, cliente a cliente, entre três movimentos. Subir onde o valor é alto e a alternativa é fraca. Manter onde o cliente é sensível a preço e estratégico no volume. Trocar desconto por contrapartida (volume, prazo, exclusividade) onde hoje ele é dado de graça. O preço do concorrente continua existindo, e vira um limite que a empresa observa, e não a fórmula que ela segue.

Parte 3 / Primeira, segunda e terceira ordem

O que acontece com a empresa que usa a IA para olhar o concorrente, e com a que a usa para conhecer o cliente?

Cada degrau parte de um fato e pergunta “e depois?”.

Cadeia 1: a empresa que precifica pelo concorrente

  1. 1ª ordem: a ferramenta compra velocidade e paridade

    O preço passa a responder em minutos ao que o rival faz. Dos mais de 500 vendedores que Chen e colegas encontraram na Amazon à ferramenta de postos que o Cade investiga, é o que o mercado oferece.

  2. 2ª ordem: a margem do setor converge para a do concorrente mais barato de operar

    Se todos seguem o mesmo sinal, a espiral leva a margem para perto do custo, e o alinhamento, quando existe, atrai o regulador. Quem tem o custo mais alto fica sem margem para trocar de estratégia.

  3. 3ª ordem: a empresa deixa de aprender sobre o cliente

    O preço vira cópia do mercado, os dados de cliente ficam sem uso, e o único diferencial que sobra é custo. Em alguns anos a empresa sabe tudo sobre o preço do vizinho e pouco sobre quem compra dela.

Cadeia 2: a empresa que precifica pelo cliente

  1. 1ª ordem: quem valoriza mais paga mais, e quem traz mais ganha condição melhor

    O preço deixa de ser igual para todos. A margem sobe onde o cliente tem pouca alternativa e o desconto passa a ter contrapartida.

  2. 2ª ordem: a carteira se reorganiza e o preço precisa ser explicável

    Clientes que só ficavam por desconto saem ou passam a comprar melhor. Em B2B os preços vazam entre clientes, e a equipe precisa saber responder por que um paga diferente do outro. Em venda ao consumidor, preço diferente por quem a pessoa é, sem razão que ela entenda, já rendeu multa à Decolar.

  3. 3ª ordem: o modelo do cliente vira um ativo que o concorrente não copia

    Cada negociação alimenta o modelo, e a empresa passa a pedir informação ao cliente em troca de condição. O preço vira uma conversa, e a margem cresce sem depender de o mercado se alinhar.

Exemplo ilustrativo: distribuidora brasileira de médio porte

Receita de R$ 60 milhões por ano e margem operacional de 6%, ou seja, lucro de R$ 3,6 milhões. Com preço pelo concorrente, a empresa empata com o mercado. Com preço por cliente, ela separa dois grupos. Os clientes que respondem por 25% da receita (R$ 15 milhões) valorizam o serviço e têm poucas alternativas, e aceitam 2% a mais: R$ 300 mil. Outros 20% da receita (R$ 12 milhões) recebem hoje 3% de desconto sem contrapartida, e o desconto cai pela metade quando passa a depender de volume e prazo: R$ 180 mil. Juntos, R$ 480 mil por ano, 13,3% do lucro, sem olhar o preço de nenhum concorrente.

Parte 4 / O que fazer com isso

Como sair do preço pelo concorrente e chegar ao preço por cliente, em quatro decisões?

O método abaixo cabe numa reunião de uma hora entre comercial, finanças, diretoria e tecnologia, antes de contratar qualquer ferramenta de preço dinâmico.

  1. Comercial e dados: o que você já sabe de cada cliente?

    Liste as quatro informações (quanto vale para ele, quanto custa atendê-lo, quanto ele vale ao longo do tempo, como reage a preço) e onde cada uma está: nota fiscal, ERP, CRM, atendimento, a cabeça do vendedor. Marque o que falta.

  2. Finanças: qual é a margem de cada cliente?

    Calcule a margem por cliente, e não só por produto, com frete, prazo, devolução e risco de crédito dentro. Ela mostra quem sustenta a empresa e quem consome margem pagando o mesmo preço.

  3. Diretoria: onde subir, onde manter e onde trocar desconto por contrapartida?

    Defina a estratégia de margem em três gavetas e as regras de exceção. Exija que cada preço diferente tenha uma razão que o vendedor consiga explicar ao cliente.

  4. Tecnologia: comece pequeno, com comparação e dado que você pode usar

    Escolha uma linha de produtos e um grupo de clientes, e compare com um grupo igual que continua no preço antigo. Use só dados que a empresa tem base para usar: em venda a pessoa física, a lei de proteção de dados vale; em B2B, vale o contrato. E pergunte ao fornecedor se dados de outras empresas do seu mercado entram no cálculo, o que o Cade já investiga. [4] afirmação da fonte original

Parte 5 / Limites

O que este texto não prova e o que o derrubaria?

As fontes mostram o que acontece quando concorrentes ajustam o preço um pelo outro: a espiral da Amazon em 2011, a presença de mais de 500 vendedores algorítmicos no marketplace, a alta de margem nos postos alemães e a investigação do Cade. A leitura de que isso leva à paridade e de que o preço por cliente é o caminho para a vantagem é da Invisible Work. Nenhuma fonte compara os dois caminhos em empresas brasileiras, e as contas do exemplo ilustrativo usam valores inventados.

A objeção mais forte é que preço diferente por cliente pode parecer injusto e destruir confiança, e que a Decolar foi multada por algo parecido: R$ 7,5 milhões em 2018, reduzida a R$ 2,5 milhões depois. [7] afirmação da fonte original Está certa, e ajusta a tese: o melhor preço por cliente se baseia em valor e custo de servir, e não em quem a pessoa é, e precisa ser explicável. Em B2B isso já é a prática da negociação, agora sistemática. Em venda ao consumidor, exige base legal e transparência.

Uma segunda objeção: em mercados onde o cliente compara tudo com um clique, como os marketplaces, seguir o concorrente é inevitável. Também vale, e por isso o preço do concorrente fica como limite, e não como fórmula.

O que faria abandonar a tese: (1) evidência de que precificar pelo concorrente sustenta margem maior, por vários anos e sem risco regulatório, do que precificar pelo cliente; (2) testes, em empresas médias brasileiras, em que o preço por cliente não supera o preço por segmento; (3) clientes que, ao saberem que pagam preços diferentes por razões explicadas, passam a comprar menos.

Parte 6 / Perguntas para levar adiante

O que a sua empresa sabe do cliente que o concorrente não sabe?

Seis perguntas para quem responde por preço, margem ou vendas.

Sobre o cliente

  1. Que informações preciso descobrir do meu cliente para dar a ele o melhor preço, que não é o menor?
  2. Quanto custa atender cada cliente, contando frete, prazo e devolução?
  3. Quem valoriza mais o que eu entrego e tem menos alternativas?

Sobre a estratégia de margem

  1. Meu preço de hoje olha o concorrente ou olha o cliente?
  2. Onde eu subo, onde eu mantenho e onde troco desconto por contrapartida?
  3. Se um cliente perguntar por que paga mais que outro, minha equipe sabe responder?

Outra análise