Análise da Invisible Work

Adoção de IA: o ganho dos 14% que vão na frente depende dos 56% que menos recebem treinamento

A pesquisa da PwC com quase 50 mil trabalhadores diz que a IA divide a força de trabalho em duas velocidades. Se o trabalho da sua empresa for uma cadeia, e não uma soma, o ganho de quem vai na frente vale o que as outras etapas permitem. Uma leitura da Invisible Work, com Michael Kremer, sobre onde colocar o investimento de IA e de treinamento.

Invisible Work11 min de leitura

Parte 1 / Entenda os dados

A PwC mediu quem usa IA. Não mediu quanto a empresa entrega

Em uma pesquisa da PwC com quase 50 mil trabalhadores, 14% estão na frente: têm habilidades escassas e usam IA bem. Outros 56% formam o que a PwC chama de “engine room” (a sala de máquinas da empresa), o núcleo da entrega do dia a dia, e só duas em cada cinco dessas pessoas dizem ter acesso ao treinamento de que precisam. A leitura de superfície é “a IA está dividindo a força de trabalho em duas velocidades”. A pergunta que costuma faltar na diretoria é outra: o que o ganho dos 14% vale para o cliente se o trabalho passa pelos 56%? [1] afirmação da fonte original [2] afirmação da fonte original

A PwC ouviu cerca de 50 mil pessoas em 48 países e 29 setores, em maio e junho de 2026, e publicou o resultado em 29 de setembro. O uso geral de IA no trabalho subiu: 64% disseram ter usado nos últimos 12 meses, 10 pontos percentuais a mais do que um ano antes, e quem usa IA generativa todos os dias passou de 14% para 22%. [2] afirmação da fonte original Na direção oposta, a parcela que diz ter acesso aos recursos de aprendizagem de que precisa caiu de 59% para 51%. [2] afirmação da fonte original

A pesquisa agrupa as pessoas por dois critérios: quão escassa é a habilidade delas e quão avançadas estão no uso de IA. Saem quatro grupos. Os “front-runners” (14%) têm as duas coisas. Os “AI insurgents” (18%) têm habilidade menos escassa, mas usam IA para entregar mais. Os “indispensables” (11%) têm habilidade escassa e estão menos avançados em IA. E a “engine room” (56%) reúne quem tem habilidade menos escassa e está menos avançado no aprendizado de IA. [2] afirmação da fonte original Os quatro percentuais somam 99% por arredondamento.

Na frente
14%
Dos cerca de 50 mil respondentes da PwC, os que combinam habilidade escassa e uso avançado de IA. Pouco mais da metade desse grupo usa IA generativa todos os dias.
Sala de máquinas
56%
A maior fatia, que a PwC descreve como o núcleo da entrega do dia a dia. Só duas em cada cinco dessas pessoas dizem ter o acesso a treinamento de que precisam.
Pensam em sair
29%
Dos front-runners, os que dizem ser muito ou extremamente prováveis de trocar de empregador no próximo ano. É intenção declarada, não saída medida.

Termos deste texto, em uma frase

Front-runner e engine room: nomes que a PwC dá ao grupo que vai na frente no uso de IA (14%) e ao grupo do meio, que carrega a entrega diária (56%). Etapa de uma cadeia: cada passo pelo qual um trabalho passa antes de chegar ao cliente (proposta, preço, contrato, cobrança, por exemplo). Taxa de acerto de primeira: a parcela de itens que sai de uma etapa sem precisar voltar para correção. Ponto percentual: diferença entre dois percentuais (de 59% para 51% são 8 pontos).

Dois cuidados antes de seguir. Primeiro, os grupos são em parte autodeclarados: a Business Insider observa que as categorias da PwC se baseiam em experiências relatadas com IA e em quão demandada a pessoa acredita que sua habilidade seja, e que a pesquisa não estabelece as razões por trás dessas experiências. [1] afirmação da fonte original Segundo, a PwC encontrou que quem usa IA todo dia declara mais confiança no emprego (68% contra 57% de quem usa pouco). [2] afirmação da fonte original É uma associação. Pode ser que a IA dê confiança, ou que quem já era confiante use mais, e a pesquisa não separa as duas.

Parte 2 / O que a leitura corrente esconde

As duas respostas habituais tratam a empresa como uma soma

Diante dos 14% e dos 56%, as respostas mais comuns são duas. A primeira é reter quem está na frente: se 29% dos front-runners pensam em sair, proteja esse grupo com salário, cargo e liberdade. A segunda é nivelar por equidade: dar treinamento aos demais para que ninguém fique para trás. O líder global de força de trabalho da PwC diz que não é uma escolha entre as duas, e que há “uma quantidade enorme de valor” a ser aproveitada se mais gente da força de trabalho aderir (tradução nossa). [1] afirmação da fonte original

As duas respostas, e a própria manchete, escondem uma premissa: o resultado da empresa é a soma do que cada pessoa produz. Se é soma, somar os ganhos dos 14% já dá uma boa parte do total, e treinar o resto é um adicional, desejável por justiça ou por retenção. Nada na pesquisa diz que a premissa é falsa. Mas ela decide tudo o que vem depois, e quase nunca é testada.

Há um segundo ponto cego, de quem lê. A PwC mediu quanto cada nível diz ter aplicado novas habilidades de trabalho em grande medida (não só de IA): 51% dos executivos seniores e 46% dos gestores, contra 29% dos não gestores e 38% do nível de entrada. [2] afirmação da fonte original Quem decide o orçamento de treinamento está, em média, do lado mais rápido dessa distribuição. A observação é nossa, não da PwC: a empresa vista de cima tende a parecer mais adiantada do que é vista de quem faz a entrega.

Parte 3 / Primeiros princípios

E se o resultado da empresa for um produto, e não uma soma?

A pergunta de primeiros princípios é: o que acontece se a premissa “o resultado é a soma” trocar de lugar com outra, “o resultado é o produto da qualidade de cada etapa”? Em 1993, o economista Michael Kremer propôs exatamente essa segunda forma, no artigo “The O-Ring Theory of Economic Development”. O nome vem do desastre do ônibus espacial Challenger, em 1986, causado pela falha de uma peça pequena, o anel de vedação (O-ring). [3] afirmação da fonte original

A ideia, descrita de forma simples: a produção se divide em várias tarefas, cada uma executada por uma pessoa com uma qualidade entre 0 e 1 (a fração do valor máximo que sobra depois que ela faz a sua parte). Quando as tarefas são complementares, o valor esperado do produto final é o resultado da multiplicação das qualidades de todas as etapas. Uma consequência listada no resumo do modelo é que os efeitos de gargalos locais são ampliados. [3] afirmação da fonte original Outra, mais importante aqui, sai direto da conta: o valor de melhorar uma etapa é proporcional à qualidade de todas as outras.

Uma conta ilustrativa, nossa e sem dado de nenhuma empresa. Imagine um trabalho com cinco etapas em sequência (receber o pedido, precificar, aprovar, entregar, cobrar), em que um erro em qualquer uma estraga o item inteiro. Cada etapa acerta de primeira 80% das vezes. O item chega correto ao cliente em 33% dos casos (0,8 multiplicado cinco vezes).

  1. Todos a 80%: 33% de itens corretos

    Ponto de partida. A cada três itens, um chega ao cliente sem precisar de conserto no caminho.

  2. Só uma etapa vai a 100%: 41%

    A pessoa mais avançada em IA faz a sua parte sem falha, o que já é a melhor situação possível para um único elo. O ganho é de 8 pontos percentuais (de 33% para 41%), ou 25% a mais em relação ao ponto de partida.

  3. As cinco etapas vão a 90%: 59%

    Nenhuma pessoa chegou perto da perfeição, mas todas melhoraram um pouco. O ganho é de 26 pontos percentuais (de 33% para 59%), ou 80% a mais.

O mesmo mecanismo mostra uma segunda coisa, a mais contraintuitiva. O ganho de levar a etapa do front-runner de 80% para 100% é de 0,2 multiplicado pela qualidade das outras quatro. Se elas estão a 80%, o ganho é de cerca de 8 pontos percentuais. Se estão a 60%, é de cerca de 2,6 pontos. A mesma pessoa, com o mesmo avanço em IA, entrega um terço do valor (3,2 vezes menos) porque quem está ao lado trabalha pior. O valor do que os 14% aprenderam depende de onde o trabalho deles vai parar depois.

Há uma condição para o raciocínio valer, e ela é o que o gestor precisa testar. A multiplicação só descreve trabalhos em que o erro de uma etapa contamina o resultado e outra pessoa não consegue compensar de graça: aprovações em sequência, atendimento que passa por várias mãos, propostas que dependem de preço, jurídico e entrega alinhados. Em trabalhos de peças independentes, em que cada pessoa cuida da sua carteira e o total é a soma das carteiras, a conta de soma vale e a retenção do melhor faz todo sentido. A pergunta de primeiros princípios deixa de ser “quem é o melhor?” e passa a ser “o nosso trabalho é uma cadeia ou uma pilha?”.

O que este paralelo não prova

Kremer descreveu países e empresas, não o uso de IA, e o texto usa o resumo da Wikipedia (o artigo original não foi consultado). A conta das cinco etapas é ilustrativa: supõe etapas independentes, erro que estraga o item inteiro e a mesma taxa de acerto para quem está na frente. A pesquisa da PwC não mede taxa de acerto nem processo de ponta a ponta, então não testa o modelo. Aplicá-lo aos 14% e 56% é hipótese nossa.

Parte 4 / O que muda se isso for verdade

Três consequências para quem decide, todas hipóteses

Se parte do trabalho da sua empresa é uma cadeia, três consequências saem da mesma conta. Nenhuma foi testada pela PwC, e o texto as marca como hipóteses da Invisible Work.

  1. A retenção dos 14% depende também de quem está ao lado deles.

    Uma das implicações do modelo de Kremer é que as pessoas avaliam o investimento em sua própria qualificação à luz do que os colegas fazem. [3] afirmação da fonte original Se isso vale aqui, o front-runner que fica preso a uma cadeia lenta entrega menos do que sabe e tem um motivo para procurar uma em que os outros também sejam rápidos. É um mecanismo possível para os 29% que pensam em sair. A PwC registra a intenção, e não a causa, e o salário é uma explicação concorrente.

  2. O indicador certo é por processo, não por pessoa.

    Contar quantos usam IA, ou quem usa mais, mede a soma. Se o trabalho é uma cadeia, o que importa é o tempo e a taxa de acerto de primeira do processo de ponta a ponta, e em qual etapa ela é menor. Um ranking de uso individual premia justamente quem já está acima da média e esconde a etapa que segura o resultado.

  3. Há duas formas de melhorar uma cadeia, e a segunda é encurtá-la.

    Pela conta, o resultado cresce se cada etapa acerta mais, e também se há menos etapas, porque cada uma é mais uma multiplicação por menos de 1. Uma IA que elimina uma passagem de mão (em vez de acelerar quem está nela) muda a premissa do jogo. Esta é a hipótese mais ambiciosa do texto, e a que mais depende de testar caso a caso.

Um ponto simples sai da pesquisa e da conta juntas: comprar ferramenta não é o mesmo que mudar o trabalho de toda a organização, e a reportagem da Business Insider diz isso quase com essas palavras. [1] afirmação da fonte original A conta de produto explica por quê: a ferramenta instalada na ponta mais rápida muda pouco o resultado, se o trabalho ainda precisa passar pelas etapas que ninguém mexeu.

Um exemplo pequeno de como isso aparece no dia a dia, vindo de uma conversa em um fórum de gestores. Um gestor de uma equipe de vendas técnicas perguntou no r/managers o que fazer com uma funcionária que usa IA em quase tudo o que envia. Depois de ler as respostas, ele concluiu que o problema real eram as mensagens (genéricas, imprecisas, longas demais), e que o uso da IA deixava de importar se esses problemas fossem resolvidos. [4] afirmação da fonte original A conclusão é a mesma da conta: o que se gerencia é o resultado da etapa, e não a ferramenta usada nela.

Parte 5 / O que fazer com isso

Um teste por processo, em quatro perguntas, antes de decidir o orçamento de treinamento

O método abaixo é da Invisible Work e pode ser aplicado em uma reunião, em um processo por vez, antes de definir onde colocar investimento de IA e de treinamento.

  1. Esse trabalho é uma cadeia ou uma pilha?

    Se um erro em qualquer etapa estraga ou atrasa o item inteiro e ninguém corrige de graça, é uma cadeia. Se cada pessoa responde por uma carteira independente, é uma pilha. Em pilha, concentre em quem rende mais. Em cadeia, siga as perguntas abaixo.

  2. Em qual etapa o trabalho mais volta para correção?

    Peça o dado por etapa: quantos itens saem certos de primeira, e quanto tempo esperam. A etapa com menor acerto de primeira é onde cada ponto melhorado rende mais, porque multiplica o resto.

  3. Quem está nessa etapa tem acesso ao que precisa?

    Acesso a treinamento, a ferramenta e a tempo para aprender. A PwC mostra que, na sala de máquinas, só duas em cada cinco pessoas dizem ter acesso a aprendizagem. Cheque se a etapa mais fraca da sua cadeia está justamente nesse grupo.

  4. Dá para encurtar a cadeia em vez de acelerar a etapa?

    Antes de treinar para acelerar uma passagem de mão, pergunte se ela precisa existir. Menos etapas é menos pontos de falha. Se a resposta for sim, o investimento vai para redesenhar o processo, e não para o treinamento de quem estava nele.

Uma observação sobre retenção. Se a hipótese da primeira consequência estiver certa, melhorar a cadeia ao redor dos front-runners é também uma política de retenção, e sai mais barata do que uma disputa salarial. Se estiver errada, a política de retenção convencional continua valendo. A diferença é que, depois do teste por processo, a empresa sabe em qual dos dois casos está, em vez de supor.

Parte 6 / Limites

O que este texto não prova

A pesquisa da PwC é uma pesquisa de percepção, com grupos em parte autodeclarados, e a própria cobertura registra que ela não estabelece as razões por trás das experiências. Este texto não teve acesso ao relatório original, que bloqueou a requisição automatizada, e usa dois veículos que reproduzem os números e as falas do líder global de força de trabalho da PwC, que é parte interessada. Não há dado aqui sobre empresas brasileiras. A teoria de Kremer foi formulada para economias e empresas, e este texto a usa por analogia: nenhum dado da PwC mede taxa de acerto ou resultado de processo. A conta das cinco etapas é ilustrativa e pressupõe uma cadeia pura, o que muitos trabalhos reais não são. As três consequências e as quatro perguntas são hipóteses da Invisible Work, não resultados medidos.

Parte 7 / Perguntas para levar adiante

Onde o trabalho trava, e quem está lá?

Seis perguntas para quem decide orçamento de tecnologia, de pessoas ou de operação.

Sobre como o trabalho flui

  1. Quais processos da empresa são cadeias, em que um erro numa etapa estraga o resultado, e quais são pilhas?
  2. Em cada cadeia, qual etapa devolve mais trabalho, e quem está nela?
  3. Alguma passagem de mão existe só porque antes nenhuma ferramenta dava conta dela?

Sobre quem recebe o investimento

  1. Quem teve acesso a treinamento em IA no último ano, e esse grupo coincide com as etapas que mais travam?
  2. O indicador de adoção que a diretoria vê mede quantas pessoas usam IA ou quanto o processo melhorou de ponta a ponta?
  3. Se a pessoa mais avançada em IA do seu time saísse amanhã, o resultado do processo em que ela trabalha cairia, e por quê?

Fontes

[1] Polly Thompson, “PwC’s huge survey of 50,000 workers says AI is splitting employees into 4 distinct groups”, Business Insider, republicada pelo Yahoo Finance em 28 de setembro de 2026 (horário do Pacífico). Fonte da descrição dos grupos, das falas de Peter Brown (líder global de força de trabalho da PwC) e da observação de que a pesquisa não estabelece as razões por trás das experiências.

[2] People Matters, “AI-driven workforce divide creates fresh retention challenge: PwC report”. Fonte dos percentuais (64%, 22%, 51%, 14%, 18%, 11%, 56%, 29%, 68% e 57%) e da distribuição por nível hierárquico. Os números conferem com os da Business Insider. A pesquisa original, PwC, “2026 Global Workforce Hopes and Fears Survey” (quase 50 mil respondentes, 48 países e 29 setores, maio e junho de 2026), é citada pelo nome, sem link: pwc.com bloqueou a requisição automatizada deste ambiente (403), e a URL não pôde ser verificada.

[3] Wikipedia, “O-ring theory of economic development”, resumo do artigo de Michael Kremer, “The O-Ring Theory of Economic Development”, Quarterly Journal of Economics, v. 108, n. 3, 1993, p. 551 a 575. O artigo original não foi consultado diretamente (JSTOR e Oxford University Press bloquearam a requisição automatizada).

[4] r/managers, “Employee that heavily uses AI”, 38 pontos e 94 comentários, publicado em 26 de setembro de 2026. A citação é a “Edit 2” do autor do post, obtida pela API oficial do Reddit. O Reddit bloqueia requisições automatizadas por curl, por isso o link não foi aberto assim; o conteúdo foi conferido na API.

Todas as URLs foram verificadas por requisição real em 02/10/2026, exceto a da PwC, a dos periódicos de Kremer e a do Reddit, pelos motivos acima. A leitura de que o trabalho pode ser uma cadeia em vez de uma soma, a conta ilustrativa das cinco etapas, as três consequências, o método de quatro perguntas e a observação sobre o ponto cego de quem decide são da Invisible Work.

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