Análise da Invisible Work
Meta de uso de IA compra aparência, não aprendizado
Numa pesquisa da Visier com 1.000 funcionários dos EUA, 48% dizem ter exagerado o uso de IA ou a própria expertise. A leitura corrente fala em falta de confiança e propõe treinamento. A premissa escondida: o número de uso seria um bom dado distorcido. Uma leitura da Invisible Work, com Steven Kerr (1975), sobre o que uma meta de uso consegue distinguir e o que a empresa deixa de aprender.
Invisible Work12 min de leitura
Parte 1 / Entenda os dados
48% dizem ter exagerado o uso de IA. Você está pagando para não saber onde ela funciona
Numa pesquisa da Visier com 1.000 funcionários em tempo integral nos Estados Unidos, divulgada em setembro de 2026, 48% afirmaram ter exagerado, ao menos às vezes, quanto usam IA ou quanto dominam a ferramenta, diante de colegas ou da liderança. A explicação corrente é que as pessoas estão pressionadas e inseguras. A pergunta que costuma faltar é de quem pediu o número: se metade pode exagerar sem custo, o que uma meta de uso de IA consegue enxergar, e quanto a sua empresa paga por isso? [1] afirmação da fonte original
A Visier chama o fenômeno de “IA performática” (performative AI): superestimar o uso para corresponder ao que o empregador espera. [1] afirmação da fonte original Andrea Derler, autora do relatório, descreve essas pessoas como participantes que cumprem o gesto, sem incorporar a ferramenta ao trabalho de forma significativa, ou sem saber como. [1] afirmação da fonte original Ela faz questão de dizer que não culpa o funcionário, e o ponto deste texto é o mesmo: o comportamento é previsível. O que interessa é o que ele faz com a informação que chega à diretoria.
- Exageraram uso ou domínio
- 48%
- Parcela dos 1.000 respondentes que diz ter exagerado o uso de IA ou a própria expertise, ao menos às vezes, para colegas ou liderança. É declaração própria, em pesquisa nos Estados Unidos. Não quer dizer que 48% dos funcionários não usam IA.
- Sentem pressão sem saber usar
- 45%
- Parcela que sente pressão para usar IA mesmo sem confiança de saber usá-la bem. Mede sensação declarada, não o efeito no trabalho.
- Dizem que a liderança entende
- 28%
- Parcela que afirma que os líderes “entendem plenamente” como os funcionários usam a tecnologia. Os outros 72% dizem algo menos do que isso, e a reportagem não detalha o quê.
Há um quarto dado, da Business Insider: 59% dos funcionários não sabem se o empregador tem um plano para o efeito da tecnologia na empresa, ou acham que não tem. [2] afirmação da fonte original O relatório conecta os dois lados, a falta de confiança no plano e a falta de confiança em que a liderança entende, ao comportamento performático. A parte prática da resposta da Visier é conhecida: treinamento (32% pediram), transparência dos líderes (31%) e espaço para falar de erros. [1] afirmação da fonte original
Termos deste texto, em uma frase
Parte 2 / Primeiros princípios
E se a IA ajudar em 3 equipes ou em 10? A taxa de uso será a mesma
Comece pelo que a diretoria quer saber. Ao pedir um número de adoção de IA, a pergunta de fundo é: onde ela gera valor, e onde vale pôr mais dinheiro? Esse é o mundo que se quer distinguir. Um mundo em que a ferramenta ajuda de verdade em poucas tarefas, outro em que ajuda em quase todas.
Um número só serve a essa pergunta se for diferente nos dois mundos. Uma conta ilustrativa, nossa, sem relação com dado de empresa real: uma empresa tem 10 equipes, e a meta é que todas usem IA toda semana.
Mundo A: a IA ajuda em 3 das 10 equipes
As 3 usam porque rende. As outras 7 foram cobradas, e algumas usam para marcar presença. Taxa de uso reportada: 10 de 10.
Mundo B: a IA ajuda em 10 das 10 equipes
Todas usam porque rende. Taxa de uso reportada: 10 de 10.
O que a diretoria vê
O mesmo painel, nos dois mundos. O número que custou tempo para coletar não distingue a situação em que o investimento deve triplicar da situação em que deve ser revisto.
É uma simplificação, claro: na vida real nem todo mundo exagera (a pesquisa fala em 48%, e “ao menos às vezes”). Mas a lógica não depende de todos mentirem. Basta que reportar uso seja barato e que não usar tenha custo, para que o número perca a capacidade de separar os dois mundos na proporção em que isso acontece. Em primeiros princípios, a meta não corrompeu uma boa medida. Ela criou uma medida que nunca separou o que importa.
Há um segundo achado dentro da conta. Se o uso é obrigatório, o silêncio sobre o que não funcionou passa a ter valor. Quem diz “tentei e não serviu” fica exposto a ser lido como quem não se esforçou. O dado de que a empresa mais precisa, o mapa do que a IA não faz bem no seu trabalho específico, é justamente o que a meta torna caro de entregar. A pesquisadora diz algo parecido em outras palavras: a meta de uso faz perder aprendizado sobre onde a tecnologia ajuda e onde não, e ela reconhece que essa não é uma mensagem conveniente (tradução nossa). [1] afirmação da fonte original
Parte 3 / Outra disciplina
Em 1975, Steven Kerr já descrevia esse erro
Em “On the Folly of Rewarding A, While Hoping for B” (Sobre a insensatez de recompensar A esperando B), Steven Kerr abre com uma constatação: a maioria dos organismos busca informação sobre o que é recompensado e passa a fazer aquilo, ou, nas palavras dele, “ao menos finge fazer”, quase excluindo o que não é recompensado. [3] afirmação da fonte original Seus exemplos vão da política à medicina. Um deles, de uma empresa que queria desempenho e premiava assiduidade, termina com a frase: a empresa esperava desempenho, recompensava assiduidade e “o que obteve, claro, foi assiduidade”. [3] afirmação da fonte original
Kerr também lista por que isso é tão comum, e dois dos motivos descrevem a meta de uso de IA quase sem adaptação. O primeiro é a fascinação por um critério “objetivo”: gestores gostam de padrões simples e quantificáveis, que funcionam onde a tarefa é previsível e causam deslocamento de objetivo no resto. O segundo é o excesso de peso em comportamentos muito visíveis: partes da tarefa são fáceis de observar e outras não. [3] afirmação da fonte original Usar a ferramenta aparece num painel. Saber quando não usar, e por quê, não.
Aplicado aqui, a meta de uso recompensa A (usar), e a empresa espera B (saber onde a IA gera resultado). O que a meta compra, de forma confiável, é A. A pesquisa da Visier mostra o quanto isso já aconteceu: quase metade admite ter feito o gesto sem o conteúdo.
O que este paralelo não prova
Parte 4 / O que não está no painel
O ativo que a meta apaga, e que o seu concorrente pode estar guardando
Aqui está o que fica invisível. Cada equipe que experimenta IA gera dois tipos de informação: o que funcionou e o que foi tentado e abandonado. O primeiro costuma ser contado, e muitas vezes comemorado. O segundo é o que decide onde investir, e quase nunca vai a lugar nenhum.
Cobra-se o uso
A liderança, sem ver como as pessoas usam (só 28% dizem que ela entende plenamente), pede o que consegue ver: contagem de uso.
Reportar abandono vira risco
Dizer que tentou e não adiantou se parece, no painel, com não ter tentado. O uso é reportado de qualquer jeito.
A empresa aprende só pela metade
Ela fica com os casos de sucesso, sem o limite deles. Tende a esticar o que funcionou em um lugar para onde não funciona, e a pagar por isso duas vezes: pela licença e pelas horas gastas em fazer parecer.
Os dois últimos itens da cadeia são hipóteses nossas. Não há, na pesquisa, medição do custo do exagero. O que existe é a conclusão da autora de que a prática é cara quando se trata de um aprendizado que a empresa precisa fazer, e rápido. [1] afirmação da fonte original
O mesmo desenho explica por que o remédio mais citado (treinar e ser mais transparente) é necessário e insuficiente. Treinamento reduz a insegurança de quem quer usar bem. Mas se a pergunta continuar sendo “quanto você usa?”, a pessoa treinada vai usar, e o painel continuará sem separar os dois mundos. Quem muda o que mede muda o que recebe.
Parte 5 / Segunda e terceira ordem
O dano não está no painel. Está nas decisões que saem dele
O primeiro efeito da meta é visível e inofensivo: o painel fica verde. O que importa é o que acontece depois, quando a diretoria decide em cima dele. Tudo o que segue é leitura da Invisible Work, sem medição na pesquisa, e por isso vem como cadeia de hipóteses.
Primeira ordem: o painel mostra adesão total
A taxa de uso sobe e fica estável. Ninguém na diretoria tem motivo para desconfiar de um número que só melhora.
Segunda ordem: o dinheiro vai para o lugar errado
Sem o mapa do que não funcionou, o orçamento se espalha por todas as equipes que “usam”, inclusive onde a IA não rende. O que quem experimenta de verdade aprende vai para conversas informais, longe do registro. E quem diz “não serviu” passa a ser lido como resistente, enquanto quem sabe parecer engajado ganha reputação de líder em IA.
Terceira ordem: a empresa tira a conclusão errada
Quando o retorno não aparece, a conclusão disponível é “a IA não funciona”, porque a empresa não sabe separar onde funcionou de onde nunca foi testada. Ela pode cortar o investimento nas equipes em que rendia e manter nas que só marcavam presença. É o erro que a medida produziu, atribuído à ferramenta.
Terceira ordem, de pessoas: a liderança enxerga ainda menos
Quem sobe na carreira é quem melhor parece usar IA. Em alguns anos, as pessoas que decidem sobre IA são as que menos viram a ferramenta falhar. Fecha-se o ciclo da pesquisa: só 28% dizem que a liderança entende como se usa, e esse número tende a piorar quando a seleção favorece a aparência.
E o concorrente do outro lado
Uma empresa que guarda o mapa do abandono sabe em quais 3 das 10 equipes a IA rende e põe o dinheiro ali. Ela não precisa de mais gente usando IA que a sua. Precisa de menos desperdício. A vantagem aparece em custo, não em adoção.
Parte 6 / O que fazer com isso
Um teste de metas de IA em quatro perguntas, com um aviso
O método abaixo aplica o raciocínio de Kerr a cada número de IA que a empresa cobra. Não propõe abandonar metas, e sim trocar o que elas medem.
Liste os números de IA que chegam à diretoria.
Licenças ativas, equipes que usam, consumo, horas “economizadas” declaradas. Escreva quem produz cada um e se há alguém que checa.
Para cada um, pergunte se ele muda quando a IA não ajuda.
Se o número seria o mesmo com a ferramenta rendendo muito ou pouco, ele informa sobre adesão, não sobre resultado. Decida se adesão é mesmo o que você quer saber.
Veja o que acontece com quem diz “tentei e não serviu”.
Na prática: esse relato é bem-vindo, ignorado ou punido? Quem o fez foi tratado como alguém que aprendeu ou como alguém resistente?
Passe a pedir o abandono explicado, ligado a uma decisão.
Por exemplo, em cada processo em que a IA foi testada: o que foi tentado, o que não serviu, em que condição serviria, e que decisão de investimento depende disso. É hipótese nossa a testar em duas ou três equipes antes de estender.
O aviso vem da própria lógica: a medida nova também pode ser jogada. Se a empresa premiar quem reporta fracasso, vai receber fracassos inventados, pelo mesmo mecanismo. Uma saída, também hipótese nossa, é não premiar nenhum dos dois lados e ligar o relato a algo que muda de verdade: a decisão de investir, parar ou redirecionar, e uma checagem por amostragem do trabalho em si, em vez do painel. O ponto é que o dado volte a custar para quem o falsifica.
Parte 7 / Limites
O que este texto não prova
O relatório da Visier não pôde ser aberto por este texto, e os números vêm de duas reportagens que o citam. A Visier vende software de dados de pessoas, o que não invalida a pesquisa, mas é um interesse a considerar. É uma pesquisa de 1.000 respondentes dos Estados Unidos, com respostas declaradas (quanto exagera, quanto sente pressão), e não há dado brasileiro. A reportagem afirma que o relatório atribui o exagero à falta de confiança nos líderes, e este texto não testou essa relação de causa. “Ao menos às vezes” é bem menos do que “sempre”. As contas de 10 equipes são ilustrações nossas. A relação com Kerr é de mecanismo: ele não tratava de IA, e não mediu metas de uso. Toda a leitura sobre a perda do mapa do que não funcionou, os efeitos de custo e o teste em quatro perguntas são da Invisible Work, e não resultados da pesquisa.
Parte 8 / Perguntas para levar adiante
O que o seu painel de IA consegue distinguir?
Seis perguntas para quem define metas, orçamento ou prioridades de IA numa empresa.
Sobre o que você mede
- Qual número de IA chega ao seu comitê, e o que mudaria nele se a ferramenta não estivesse ajudando?
- Quanto tempo as equipes gastam para produzir e defender um número de uso que ninguém usa para decidir?
- Se você sorteasse uma tarefa de uma equipe que “usa IA”, saberia dizer em minutos se a ferramenta fez diferença?
Sobre o que você aprende
- O que acontece com quem diz que testou uma ferramenta e decidiu não usá-la?
- Onde está registrado o que sua empresa já tentou com IA e abandonou, e quem consulta esse registro antes de uma nova compra?
- Que decisão de investimento da sua empresa depende de um número que as pessoas têm motivo para embelezar?